terça-feira, 6 de agosto de 2013

Sobre culpa e perdão (Capítulo 1)

Sentimento de culpa é algo infinitamente engraçado.

Trata-se, a rigor, do sentimento provocado por condições aversivas que nos são aplicadas quando nós, ainda crianças, somos punidos. Não qualquer punição: a culpa é especificamente aquele sentimento de dupla aversividade: uma por estar sujeito a uma punição e outra por termos ofendido ou magoado alguém que nos dá amor e carinho.

Aos poucos, não é necessário haver punição real para que venha a culpa: só pelo fato de se "saber" que tal ação foi danosa a alguém e que poderia ser punida, nos sentimos profundamente chateados por ter "pisado na bola". Da mesma forma, não é necessário que a ofensa seja a alguém que nos ame, nós nos tornamos capazes de sentir culpa por ofendermos desconhecidos. Ou até apenas por pensar em ofender. Deve lá ter sua função adaptativa, pois muitas cagadas são evitadas pela simples possibilidade de ocorrer a culpa.

Apenas pela complexidade deste sentimento, já é possível ficarmos entretidos horas e horas, avaliando se aquela culpa que sentimos por décadas é realmente necessária: será que desejar ou pensar que uma pessoa seria mais produtiva morta do que viva deve ser, obrigatoriamente, um mal? Será que eu, nos recônditos da minha privacidade, não tenho o direito de desejar ou imaginar coisas ruins aos outros? O que, afinal, é digno de ser punido, o pensamento/desejo ou o ato de ofender aos outros?

Obviamente há defensores do bem que dirão que sim, é possível "pecar até em pensamentos". Tenho um pouco de pena de pessoas assim, devem conviver com monstros internos inimagináveis, cercadas por muros altos e sólidos que as separam do belo e perfeito mundo que poderia ser destruído por sua maldade de coração. Evitar viver é, talvez, a forma mais eficiente de não sentir culpa.

Encerro essa postagem de forma um pouco sem sentido, mas ainda preciso de um tempo para processar minhas ideias sobre como é possível se livrar da culpa. Prometo voltar em breve com um novo texto.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

What choice do I have?



Brenda: Eu acho que é tudo apenas aleatório.
Nate: Sério?
Brenda: É. Nós vivemos, nós morremos. No fim das contas, nada tem sentido algum.
Nate: Como você consegue viver desse jeito?
Brenda: Sei lá, às vezes eu acordo tão desgraçadamente vazia que eu desejo nunca ter nascido. Mas que escolha eu tenho?

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Sentimentos são só sentimentos (capítulo 2)

POR QUE VOCÊ NÃO ME AJUDA, COMPUTADOR?
Faz tempo que pensei em escrever um texto sobre uma viagem que fiz no meu aniversário, em fevereiro. Mas olha, preciso descobrir uma fórmula de como produzir textos desvinculados dos sentimentos que tenho no momento de sentar à frente da tela do computador. 

E foram MUITAS as vezes que tentei escrever. Mas a vontade era de escrever sobre outras coisas, sobre aflições e desesperos e alegrias e satisfações que aconteciam no dia... enquanto isso, a viagem lá de fevereiro ficou em fevereiro mesmo, não compareceu no presente.

Será que é possível escrever sem se deixar levar pelo rio de sentimentos? Parece que essa vinculação não faz lá muito sentido, sabe? Poxa, escrever é escrever, é razão, é pensamento, é organização mental... e sentimentos, bem... são apenas sentimentos...

E daí que depois de fevereiro, zilhões de coisas aconteceram, provocando zilhões de sentimentos... e olha que viajar no meu aniversário para um lugar bacana era um sonho desde 2006. A vida simplesmente minou o contentamento todo que senti nessa viagem.

Se alguém quiser e, ou, puder me ajudar a escrever sem ser sobre algo urgente que está dentro do meu peito, por favor se pronuncie. Grato.

A direção.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

E se sexo não fosse tudo na vida de alguém?

"Ele comentava sobre a esposa como se ela fosse um doce de pessoa, gentil, meiga, simpática, inteligente e compreensiva... ontem bati no apartamento deles e ela me atendeu. Me apresentei, disse que era colega de trabalho do marido dela, pedi um não-sei-o-que emprestado e só faltou ela cuspir na minha cara e me chamar de puta... que raiva dessa gente que acha que homem não pode ter amiga mulher, já acham que ele vai sempre querer comer ela ou ela vai sempre querer dar pra ele..."

E isso ocorreu em 2013. A esposa do amigo da minha amiga é pessoa supostamente esclarecida, da classe média e com alto nível educacional. Depois de entrar em contato com essa e algumas outras histórias, fico imaginando o quanto nossas vidas, nossas idéias, concepções, reações e sentimentos são calcados numa eterna e fantasiosa possibilidade de que as pessoas, quando possível, comerão umas às outras.

A supervalorização do sexo, assim como para minha amiga da história, é algo que me irrita de muitas formas. É como se todas as motivações humanas orbitassem a possibilidade de comer/ser comido(a); basta que o marido tenha uma amiga mulher que a esposa, automaticamente, já a encara como uma pistoleira capaz de seduzi-lo. O contrário também é válido: se a esposa tem um amigo homem, o marido logo imaginará que o cara só quer levar a mãe de seus filhos para a cama e ela, como boa safada, irá corresponder, obviamente. E não pensem que esse é um mal exclusivo entre heterossexuais: entre casais homo, muitas vezes basta que um(a) dos(as) dois/duas tenha ou queira ter amizades com outros(as) gays/lésbicas para que a situação seja tratada pelo(a) parceiro(a) como uma foda-para-acontecer-a-qualquer-momento.

Não digo que nunca sofri deste mal, não mesmo. Sou fruto da minha história cultural e "aprendi" que todo mundo está nessa vida apenas para se deitar nu pelas esquinas escuras da cidade com o(a) primeiro(a) que aparecer. Acontece que, à medida que o tempo passa, é necessário que outras coisas importantes ocupem nossos pensamentos e o sexo seja posto em seu devido lugar: coisa importante na vida, mas não A MAIS importante.

É como se não pudessem existir intenções de relacionamento baseadas em amizades, em interesses mútuos, em pensamentos compartilhados, em rir das mesmas coisas, em apoio desinteressado a alguém que se gosta. Como se a qualquer instante uma troca de afeto pudesse se tornar uma trepada. Ok, isso acontece sim, não sou ingênuo de negar... mas imaginem como seria o mundo se todos os seus amigos e amigas apenas quisessem tirar uma casquinha de você. Me parece uma limitação insensata do potencial de formação de vínculo que nós desenvolvemos ao longo de milhares de anos de evolução da espécie.

Sigmund Freud propôs, no início do Século 20, que a energia de vida é composta principalmente pela energia sexual, quebrando o tabu de se falar sobre sexo em uma época absolutamente conservadora. Entretanto, o próprio Sigmund, ao ver que suas idéias começaram ainda durante a sua vida a ser mal interpretadas, certa vez disse: "às vezes, um charuto é apenas um charuto", numa inequívoca alusão a interpretações sexuais feitas sobre o seu hábito de fumar.

Da mesma forma, às vezes, um amigo é apenas um amigo.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Vamos falar sobre Kinsey?

Recentemente fiz algo que geralmente não faço, que é entrar em um embate virtual sobre sexualidade humana. Minha motivação foi o artigo "'Heterossexualidade não é natural, é compulsória', diz sociólogo", da jornalista Cléo Francisco, publicado em 15/4/2013 na seção Comportamento do portal UOL Mulher. Obrigado, Cléo, você provocou a ira de muitas pessoas e me instigou a respondê-las. Obrigado nada, passei muita raiva tentando discutir com preconceituosos.

Nos comentários à matéria, os argumentos mais utilizados para discriminar e marginalizar a homo e a bissexualidade foram a "naturalidade" e a "majoritariedade" do comportamento heterossexual, como forma naturalmente selecionada de reprodução da espécie. Foi então que eu comentei que, entre as espécies animais, especialmente aves e mamíferos, comportamentos homossexuais são amplamente conhecidos, descritos e relatados cientificamente. Ora, se a homossexualidade existe na natureza, e se tivemos centenas de milhões de anos de processo evolutivo, então é um comportamento que TAMBÉM foi naturalmente selecionado (beijos, Darwin). Obviamente, responderam ao meu comentário com um "na natureza também tem doenças". Não vou entrar no mérito de que as doenças também foram naturalmente selecionadas e de que o valor que se dá, bom ou ruim, a algo é uma arbitrariedade humana. Mas fiquei na dúvida: gente, decidam-se, vamos falar sobre o que é natural ou sobre o que não é natural?

Não não, vamos falar sobre Kinsey.

Alfred Kinsey (1894 - 1956) foi um pesquisador estadunidense que se dedicou à pesquisa da sexualidade humana e foi pioneiro neste campo científico. (Psicanalistas, me perdoem: mas vocês sabem que Freud não fez pesquisas, né?) Em 1948 publicou a obra "Comportamento Sexual no Homem" e em 1953, "Comportamento Sexual da Mulher" e estes dois livros, resultados da aplicação de mais de 10 mil questionários, ficaram conhecidos como o Relatório Kinsey. Kinsey e sua equipe levantaram com os pesquisados, dentre muitas outras informações sobre práticas sexuais, dois dados importantes: se o(a) entrevistado(a) pratica sexo com homens ou mulheres, com qual frequência de cada, e se sente atração por homens ou mulheres, com qual frequência de cada. A partir desta pequena parte dos dados obtidos, Kinsey descreveu estatisticamente a orientação sexual entre humanos, desenvolvendo uma escala que ficou conhecida como Escala Kinsey. A escala varia do item "0 - exclusivamente heterossexual" a "6 - exclusivamente homossexual". Vejam só que interessante: os escores obtidos nesses dois extremos da escala foram virtualmente idênticos, cerca de 12% cada um, ligeiramente mais alto no item 0. Ou seja, a heterossexualidade EXCLUSIVA é tão "minoria" quanto a homossexualidade EXCLUSIVA. A maioria esmagadora, cerca de 65%, dos 10 mil pesquisados responde sexualmente ou pratica sexo PREFERENCIALMENTE com um dos sexos, mas INCIDENTALMENTE/EVENTUALMENTE/MAIS DO QUE EVENTUALMENTE responde ou pratica com o outro. Destes 65%, mais de 2/3 já chegaram ao orgasmo em pelo menos uma relação homossexual na idade adulta. Sugiro como leitura a página do Kinsey Institute, vale a pena mesmo sendo em inglês: The Kinsey Institute.

O Relatório Kinsey e a escala nos mostram algo que, a meu ver, é um dos maiores achados científicos sobre sexualidade humana: nós, Homo sapiens sapiens, somos absurdamente complexos. Nossa sexualidade NÃO PODE ser definida como homo, bi ou heterossexual. Aliás, esta compartimentalização é meramente didática. Quem é o gay que NUNCA transou com uma mulher? Qual é a lésbica que NUNCA deu para um homem? Qual é o "pai de família, casado com dois filhos, pagador de impostos e homem de bem" que nunca sentiu atração por outro homem? Sentir atração pelo mesmo sexo, ou mesmo transar com alguém, incidental, eventual ou mais do que eventualmente, faz de alguém gay ou lésbica?

Creio que todos nós devemos ler e reler Kinsey ao longo das nossas vidas, muitas vezes. Para lembrarmos do quão babacas podemos ser se tentarmos etiquetar seres humanos.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Se ao menos eu tivesse um cérebro...

Um dos livros que li durante minha graduação se chama "Comportamento Humano Complexo". Desde aquela época acho engraçado este título: existem comportamentos humanos simples? Nos últimos capítulos, os autores tratam do mais complexo dentre toda a complexidade: o comportamento verbal.

(pausa para simplificações grosseiras da Análise do Comportamento, desculpa profª Vânia, desculpa Skinner)

Comportamento não-verbal é aquele que tem consequências diretas.

A- tenho sede
B- pego um copo de água
C- bebo água

Típica análise A-B-C, Antecedente, Behavior, Consequência.

Comportamento verbal é aquele que tem consequências mediadas por outro sujeito.

A¹- tenho sede
A²- tem outro sujeito perto
B-  digo: "sujeito, traga-me um copo de água, por favor"
C¹- o sujeito pega um copo de água e traz para mim
C²- bebo água

Este episódio verbal básico é só o início, eu poderia descrever uma longa cadeia de comportamentos, incluindo eu dizer "obrigado" para o outro sujeito e o meu agradecimento se torna Consequência para os Behaviors dele, que por sua vez sorri, o que se torna Consequência para meu "obrigado" etc. etc. etc.

(fim da pausa para simplificações grosseiras da Análise do Comportamento e início das conclusões grosseiras acerca disso tudo)

A partir disso, percebam o quanto o comportamento verbal nos prepara para o mundo. Não precisamos manipular nosso ambiente de forma imediata, podemos manipular o outro para que ele manipule nosso ambiente. O ambiente humano é, portanto, uma rede de manipulações de comportamento.

Ao mesmo tempo que o comportamento verbal nos prepara para o mundo, também nos impede de sermos tão suscetíveis à manipulação: uma vez que eu "falo para mim mesmo" como funcionam as coisas com o sujeito X ou Y, esta "fala interna" (conhecida popularmente como "pensamento", "consciência" e sinônimos) nos prepara para rompermos o ciclo de manipulação. Em condições ideais, eu posso parar de mediar as consequências para o outro: "ah, levante-se e pegue você mesmo sua água!"

Ao processo de observar correlações e criar "falas internas" sobre elas chamamos "raciocínio", que é a base das diferenças entre nós e todas as outras espécies animais. Viver sem este processo é o primeiro passo para nos mantermos manipuláveis. Animais não criam falas internas, não raciocinam, não são capazes de saber de antemão como se comportar com os outros sujeitos. E mais importante: não são capazes de compartilhar com os outros os seus aprendizados, senão na forma da interação. Nós sempre podemos escrever ou falar os nossos pensamentos e, com isso, alertar aos outros; em parte, é assim que nós aprendemos que devemos olhar para os dois lados da rua para que não morramos atropelados, a lavarmos as mãos para evitar contaminações, a trabalhar a vida toda para podermos usufruir de uma velhice confortável décadas depois...

Pensar liberta o ser humano dos outros seres humanos. Simbolicamente, é como o desejo do Espantalho de O Mágico de Oz: ao pensar, ele é capaz de sair da estaca na qual estava amarrado. If I only had a brain...


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Ki vagyok én?

O maior aprendizado científico, filosófico, humano e social que a formação em Psicologia me proporcionou é a compreensão de que as coisas só existem em relação. Não há nada que seja absoluto, nenhuma existência-em-si. As coisas existem? Sim, elas existem e essa afirmação (por vezes chamada de "visão positiva") é fundamental para a ciência tal como é conhecida. Mas o mais importante não é afirmar a existência das coisas e sim, qual é a relação entre as existências.

A antiga questão filosófica de que "se uma árvore cai no meio da floresta e ninguém presencia, é possível afirmar que ela caiu?" pode ser respondida tanto com "sim, caiu"  (se o fenômeno foi presenciado e registrado), quanto por "não se sabe". A meu ver, a resposta mais completa seria "depende".

Se a árvore cai, pode ser que não haja registro consciente/verbal/escrito/pensado feito por algum Homo sapiens sapiens. Neste sentido, pode-se dizer que, em relação ao montante de conhecimentos acerca da realidade, a queda de uma árvore não provocou impacto. Pode até ter caído, mas para que ou quem isso é importante? O que me parece é que a queda da árvore só faz sentido para (e se) provocou um start de relações e correlações com tudo o que há a sua volta. Depende das consequências que provoca para ser conhecida. Fenômenos físicos, químicos, biológicos e também psíquicos, sociais e humanos só fazem sentido em relação.

Parece simples chegar a essa conclusão e aceitar as consequências disso. Entretanto, as complicações apenas começam neste exato momento em que se admite a relatividade do mundo. Passemos para o campo da existência humana, tão aclamada e valorizada em todos os campos do conhecimento. Vamos imaginar um (possível) Sr. Oláh Géza, nascido em Sarkad, Condado de Békés, Hungria. Esta pessoa existe?

Sim e não.

Existe para quem o conhece. Existe para quem age/reage/interage(iu) com ele. Existe agora, que citei neste texto e agora que, pelo menos na forma de um nome escrito com oito letras no total, ele provocou impacto em quem neste momento lê meu texto. Para quem não leu e não interagiu com o Sr. Oláh, ele continuará a não existir.

Filosófico demais? Não. Pretendo não entrar no mérito da Análise Comportamental, mas para quem está familiarizado com a abordagem, é fácil perceber o quanto esta discussão também é científica e psicológica.

Ampliando um pouco mais a questão, remodelo a pergunta: "eu existo?" Existo para quem sofre as consequências do meu ser-no-mundo. Existo para mim mesmo, humano e dotado de autoconsciência (e minha autoconsciência só existe na minha relação com o outro, mas esta é questão para outro texto). Mas, com quase toda a certeza possível, eu não existo para o Sr. Oláh. Relação injusta essa, eu não existo para ele, mas ele passou a existir para mim enquanto escrevia este texto.

E vocês, existem?